50 anos de um Ícone


Fábrica da Davidoff na República Dominicana (Foto: © Oettinger Davidoff AG 2016)

Do pequeno comerciante à maior potência de charutos premium do mundo

Por Cesar Adames

Um ícone no mundo dos charutos premium, Zino Davidoff é a referência de qualidade, consistência e tempo, deixando seu nome eternamente ligado ao bom gosto, a um estilo e aos prazeres da vida. Para continuar como o fornecedor líder no mercado global de charutos premium, o Grupo Oettinger-Davidoff manteve-se ao legado de seu fundador e expandiu seus horizontes, conseguindo, em 2017, faturar mais de 2 bilhões de reais.

O início

Zino Davidoff nasceu em 1906, na Ucrânia. Aos cinco anos de idade, sua família foi forçada a migrar da Rússia czarista e encontrou em Genebra seu novo lar. Em 1911, seu pai abriu uma pequena tabacaria, até hoje existente. Após graduar-se na escola, decidiu conhecer o mundo e, incentivado por seu pai, viajou pela América do Sul e Central onde aprendeu sobre o tabaco, estudando não apenas como ele era cultivado, seco e fermentado, mas, sobretudo, a melhor forma de misturá-lo e formular blends diferenciados, descobrindo excitantes e novos sabores.
Ao término de sua jornada de cinco anos, em 1930, retornou à Suíça decidido a dedicar todo seu talento aos charutos. Inaugurou uma seção exclusiva na loja seu pai, reservada para armazená-los e envelhecê-los. Possuindo conhecimento técnico dos processos envolvidos, desenvolveu uma área com controle do ambiente para evitar a perda de qualidade; foi a primeira do mundo e a precursora do umidificador, adiantando uma tendência que predominaria décadas seguintes.

Durante a 2ª Guerra Mundial, comprou todo o estoque de puros cubanos da empresa francesa Seita, evitando que acabassem nas mãos dos alemães. Com o final da guerra, os produtores de charutos cubanos acompanharam Zino na conquista do mercado europeu, até então dominado pelos produtores alemães, holandeses e suíços. Em razão da reputação adquirida nesse período, lhe foi dado o direito de produzir uma linha própria em Cuba.

Paixão em atender clientes e ensinar a arte de degustar charutos

A partir de 1940, Zino já havia consolidado sua marca na Europa. A atenção dedicada aos seus clientes foi preponderante para se tornar uma celebridade mundial. Um episódio clássico dessa devoção ao atendimento alude a um senhor que ingressou em sua loja e comentou que seus charutos eram caros, mas por ser um fazendeiro riquíssimo, tinha o privilégio de poder comprar qualidade e por isso levou uma caixa. Na manhã seguinte retornou narrando que experimentou apenas um, porém, não havia percebido tanta diferença em relação a outros premiados. Para demonstrar que seus charutos eram idênticos e possuíam qualidade superior, pegou dois dessa mesma caixa e propôs uma degustação em conjunto. Explicou as nuances, os sabores e os aromas de seu delicado blend. Após essa experiência, o fazendeiro reconheceu uma infinidade de sutilezas que diferenciavam os charutos de Zino de qualquer outro que havia provado, tornando-se um assíduo cliente.

E assim o fez com todos aqueles que frequentavam sua loja, ensinando cliente a cliente a apreciar as caraterísticas de um charuto premium e a degustá-los de maneira apropriada. Seu saber e simpatia pessoal, atraíram reis, príncipes, chefes de estado, artistas, músicos, milionários, homens de negócio e connoisseurs.

A série Château

Davidoff Château Haut-Brion

Empresário de sucesso e apreciador de vinhos requintados, Zino fez com que uma simples caixa de charutos esquecida na adega de seu amigo Philippe Rothschild, desse origem, a partir de 1946, a uma das séries mais aclamadas da história, a linha de charutos batizada de “Château”, seguida do nome de grandes produtores de vinhos franceses.

“Davidoff foi o único produtor da história que conseguiu ter charutos batizados de Château Latour, Haut-Brion, Lafite, Lafite-Rothschild,Mouton-Rothschild, Yquem, Margaux e Dom Pérignon.”

Como não havia pedido permissão aos proprietários para o uso das marcas, Zino usou de sua simpatia e marketing para enviar em primeira mão essas caixas aos produtores. Quando viram o nome de seus vinhos imortalizados nas caixas dos charutos Davidoff, os direitos foram acertados. A linha “Château” triunfou no mercado ao longo de décadas, esgotando rapidamente a cada “safra”. Aos produtores de vinho, algumas caixas sempre eram reservadas.
A partir de 1975, os charutos da série Château foram relançados em caixas cabinet com a anilha Davidoff e, em 1977, foi lançado o Davidoff Dom Pérignon, um Churchill (17,8 cm de comprimento por 1,86 cm de diâmetro), em homenagem ao champanhe. Na década de 1990, série Château foi rebatizada “Grand Cru”.

A parceria com Ernst Schneider

Ernst Schneider e Zino Davidoff (Foto: © Oettinger Davidoff AG 2016)

Em 1967, Zino foi abordado pelo estatal cubana Cubatabaco (atual Habanos S.A.), para criar uma linha com o nome Davidoff. Os charutos seriam produzidos na recém estabelecida fábrica El Laguito, em Havana, criada para enrolar os charutos de Fidel Castro. Assim, em 1968, o mundo dos charutos acolheu um novo nome e uma nova filosofía de vida. A jornada de Zino desde as origens de sua pequena loja em Genebra até um grupo global posicionado em todos os mercados havia começado, com o lançamento dos primeiros charutos com a clássica anilha branca da Davidoff, inclusive a vintenária linha “Château”.

Zino era um dos únicos a ter uma produção privativa em Cuba e estava no auge de sua carreira. Para perpetuar seu projeto de vida, em 1970, vendeu sua única loja ao seu amigo e empresário suíço Ernst Schneider, do Grupo Oettinger Imex A.G.. O valor da venda foi de 4 milhões de franco suíços, uma fortuna ao seu tempo, mas justificada pela certeza de Schneider que expandiria os negócios e transformaria essa loja numa potência mundial.

A primeira medida de Ernst Schneider no comando foi proteger o nome Davidoff, naquela época utilizado em todos os tipos de produtos por outras empresas – da Europa a Ásia, de sorveterias a sapatos. A partir de então, os produtos antes restritos ao estabelecimento de Genebra, passaram a ser distribuídos ao redor do mundo em lojas de alto padrão que transmitissem a filosofia da Davidoff de desfrutar das coisas boas da vida.

Cortando laços com Cuba

Zino rompeu a relação com Cuba de maneira dramática: em 23 de agosto de 1989, fez manchete nos jornais ao queimar pública e propositalmente 130.000 charutos produzidos em Cuba.

Com esse ato, deixou clara sua posição que os charutos proporcionam um momento de prazer na vida, devendo justificar o dinheiro investido e o tempo dedicado para degustá-los. Deveriam, portanto, ser de extrema qualidade e contínua consistência, sempre com um sabor único, distinto e marcante. Como os charutos cubanos não tinham mais essas características, não eram dignos de receber a já consagrada anilha da Davidoff.

Em razão de um acordo celebrado entre Zino e a Cubatabaco, essa estava proibida de fazer charutos com seu nome e, aqueles ainda encontrados no mercado, deveriam ser comercializados até o final de 1992. A antiga fábrica em El Laguito continua sendo utilizada pela Habanos S.A. para produzir a marca Cohiba.

Entra em cena a Tabadom

O espírito pioneiro e a liderança em inovação continuaram a ser um foco para Zino e Ernst Schneider, que buscavam uma nova pátria capacitada a produzir os charutos com a características que consagraram e consolidaram sua marca. Seu destino foi ninguém menos que Hendrik Kelner, com quem firmou uma parceria que duraria até o final de sua vida.

Henke, como é conhecido por seus amigos, pertencia a uma família de produtores de tabaco e se formou em engenharia, o que possibilitou sua empresa Tabacos Dominicanos Companies Group – Tabadom – associar arte a ciência, logo, elaborar charutos com o melhor dos dois mundos.

Desde o início, Eladio Díaz, master blender e responsável pelo controle de qualidade, e Manuel Peralta, responsável pela área de genética e agronomia, formaram uma forte amizade e o ajudaram por mais de quatro décadas a elaborar os charutos Davidoff. A gama de diversas experiências de sabor e aromas tornou-se mais abundante para todo aficionado a partir da união desses gênios.

Da esquerda para a direita: Hendrik Kelner, Manuel Peralta, Klauss Pieter Kelner e Eladio Díaz (Foto: © Oettinger Davidoff AG 2018)

Os primeiros charutos fabricados República Dominicana foram lançados em 1991. A linha tradicional com anilha branca é composta pela Signature, Aniversário e Grand Cru (novo nome da série Château). Para comemorar a virada do milênio, em 2001, foi lançado o “Millennium Blend”, com força intensificada, sabor acentuado e aroma enfatizado, rapidamente se destacou das linhas existentes.

Em 1994, com 87 anos de idade, Zino faleceu em Genebra e tornou-se um ícone, para sempre associado como apreciador das coisas boas da vida e apaixonado por charutos.

Expandindo horizontes

O arrojado pioneirismo, a criatividade ímpar e a arte de inovar distinguiram Zino desde sempre. Sua busca incansável por novos tabacos e blends tem sido a inspiração para todos os charutos requintados que nas últimas cinco décadas carregaram a icônica anilha Davidoff. Era hora, então, de deixar a zona de conforto e explorar territórios antes desconhecidos.

Seguindo os passos de Zino e como líder de inovação no setor de charutos premium, a Davidoff encantou seus clientes com novas e dife- renciadas experiências de sabor e aroma ao integrar em seu portfólio tabacos de todos os cantos do mundo e preparar magistralmente blends para estimular os sentidos dos aficionados.

Em 2013, a Tabadom – Davidoff e seu trio de gênios começaram a inovação lançando a série “Nicarágua”, a primeira a incorporar tabaco não originário da República Dominicana. A novidade foi recepcionada com nota 93 pela Cigar Journal e nota 95 pela Cigar Aficionado (mesmo diante de 30 anos de uma intrincada relação entre a marca e a revista), mostrando complexidade, elegância e balanço – um sucesso imediato. Em 2015 surgiu o “Escurio”, com tabacos do Brasil, e, sucessivamente, vieram os charutos com o nome do primeiro-ministro britânico, sendo a Davidoff a única marca autorizada pela família a utilizar comercialmente o nome Winston Churchill.

Em 2016, chegou ao mercado a aclamada linha “Yamasa”, em homenagem à região dominicana com o mesmo nome, considerada pelos especialistas uma das melhores já produzidas, com complexidade única. Em 2017, lançou o inovador “Winston Churchill – The Late Hour” feito com tabaco envelhecido por seis meses nos melhores barris de uísque single malt escocês. Ninguém, além de Davidoff, colhe os tesouros dessas regiões e consegue misturá-os com tal habilidade e sofisticação. A Davidoff apresentou o “Oro Blanco Special Reserve 2002”, o mais raro dos charutos e a indulgência final. Esse charuto é lançado somente quando Eladio Díaz decide que estão envelhecidos o suficiente para encantar o cliente, assim, é dele a decisão de quando, quantos e quem receberá esses charutos. Até o momento, apenas 5 lotes de 50 foram disponibilizados, com folhas colhidas na região de Mao e envelhecidas por 12 anos e 18 meses, com valor superior a 500 dólares a unidade.

Crop-to-Shop

A Oettinger ainda permanece uma empresa familiar dedicada à produção, marketing, distribuição, varejo e venda de charutos premium e acessórios de luxo, contando com 3.600 funcionários ao redor do mundo.

O Grupo Oettinger-Davidoff está firmemente enraizado na filosofia crop-to-shop (da “colheita-à-loja”) e segue a abordagem da integração vertical controlando a operação desde os campos de tabaco na República Dominicana, em Honduras e na Nicarágua até a rede global de mais de 75 lojas próprias da Davidoff e selecionada rede de lojas autorizadas, denominadas “appointed merchants”.

A essência do legado de Zino perpetua-se ao se assegurar a altíssima qualidade dos charutos pela verticalização do negócio, desde a seleção das sementes até a mão dos aficionados, e a inigualável consistência dos charutos obtida pelo acervo de toneladas de folhas envelhecidas.

A política de focar única e exclusivamente no mercado de luxo dos charutos premium totalmente enrolados à mão de altíssima qualidade e o novo e diferenciado portfolio iniciado em 2013, permitiu que o Grupo Oettinger-Davidoff faturasse mais de 2 bilhões de reais em 2017.

50 anos de Davidoff

Este ano, a marca Davidoff comemora o 50º aniversário de sua icônica anilha branca e homenageia o espírito do homem que deu nome à empresa – Zino Davidoff. Para a celebração, trouxe de volta o seu excepcional Diademas Finas, um charuto que foi lançado em 2006, para comemorar o que seria o 100º aniversário de Zino.

Essa edição limitada foi disponibilizada em apenas 8.000 jarros de porcelana numerados, cada um contendo 10 charutos e um dispositivo de umidificação. Apresentam-se com 4 designs artísticos distintos, representando o continente americano, o oriente médio, a europa e a ásia. O blend tem um senso incomparável de equilíbrio e a assinatura sofisticada da Davidoff.

O privilégio de possuir um destes jarros de porcelana é para poucos, eles foram vendidos em apenas 10 horas após seu lançamento oficial, mas ainda pode ser encontrado em algumas poucas tabacarias.

Davidoff Diademas Finas, relançado em celebração dos 50 anos da marca
(Foto: © Oettinger Davidoff AG 2018)

Tempo hoje é escasso e deve ser usufruído da melhor forma possível. Ter tempo é o verdadeiro luxo da modernidade. Tempo é também o ingrediente essencial à fabricação de um charuto premium. Não é sem razão que é mencionado no mais novo e bem escolhido lema da Davidoff: “Time beautifully filled”.

Anterior Mundial de Endurance de Volta ao Brasil
Próximo Caioba Soccer Camp

Sem comentário

Deixe uma resposta